Por Luiz Gustavo Oliveira -Campina
Grande/PB - 23/07/2013
- "Manda chamar São Pedro aí minino", avisa um senhor robusto de
passo vagaroso e sorriso tímido ao anjo que o recebe na portaria do céu.
E o
anjo, tomado pela surpresa do pedido, emenda sem muita convicção. -"São Pedro
a essa hora está dormindo!"
E o homem de gestos lentos e voz baixa, com sua sanfona do lado não perde
tempo:
-"Eu sabia. Só pode
estar dormindo o santo, com tanta seca no Sertão! Pois me diga uma coisa, meu
filho, onde é que fica aqui o pessoal do forró, do baião, do xote, do xaxado,
do pé de serra?”
E o
anjo já irritado com tanta perguntação, dispara:
-"O senhor pegue sua sanfona e entre
tocando do mesmo jeito que fez a vida toda e eles vão reconhecer na hora pois
pra tocar como o senhor, aqui nunca chegou ninguém."
E assim, querendo
agradar, Seu Domingos aprumou sua velha companheira e emendou sua cantiga mais
linda:
Estou de
volta pro meu aconchego
Trazendo na mala bastante saudade
Querendo
Um sorriso sincero, um abraço,
Para aliviar meu cansaço
E toda essa minha vontade
Que bom,
Poder tá contigo de novo,
Roçando o teu corpo e beijando você,
Prá mim tu és a estrela mais linda
Seus olhos me prendem, fascinam,
A paz que eu gosto de ter.
É duro, ficar sem você
Vez em quando
Parece que falta um pedaço de mim
Me alegro na hora de regressar
Parece que eu vou mergulhar
Na felicidade sem fim
Seus olhos brilhavam, à medida que os amigos de tantos anos iam aparecendo.
Trazendo na mala bastante saudade
Querendo
Um sorriso sincero, um abraço,
Para aliviar meu cansaço
E toda essa minha vontade
Que bom,
Poder tá contigo de novo,
Roçando o teu corpo e beijando você,
Prá mim tu és a estrela mais linda
Seus olhos me prendem, fascinam,
A paz que eu gosto de ter.
É duro, ficar sem você
Vez em quando
Parece que falta um pedaço de mim
Me alegro na hora de regressar
Parece que eu vou mergulhar
Na felicidade sem fim
Seus olhos brilhavam, à medida que os amigos de tantos anos iam aparecendo.
Veio
Jackson com um pandeiro na mão acompanhando a toada. Deu um abraço e disse: -“Tamo
junto. Hoje o côro vai comer"
Veio Patativa do Assaré com um maço de
papel rabiscado e emendou: -"Não
vinha simbora não, homem? Olha o tanto de letra pra você botar musica."
Veio Marinês com uma chinelinha rasteira e não perdeu tempo:
Veio Marinês com uma chinelinha rasteira e não perdeu tempo:
-"Até que
enfim, Neném! Pensei que tú não vinha mais. Termine logo essa ladainha que eu
quero matar a saudade de tocar um xote contigo".
Abdias na sua sanfona de oito baixos rasgava solos de arrepiar as penas dos
anjos que se aproximavam pra ver aquela "confusão" que se formava na
entrada do céu.
Um
sujeito de uma brancura que doía nos zóio puxou também seu fole que logo Dominguinhos
reconheceu. Com uma deferência sanfonada, abraçou o velho amigo: -
"Se achegue, mestre Sivuca. Eu lhe disse que a gente ainda se encontrava".
E assim, tantos outros grandes mestres da musica popular nordestina. Tantos
amigos, tantos companheiros desses longos anos de estrada.
O forró começou e era uma música atrás da outra. -"Eita forró bom como o
diabo.", gritou Dominguinhos. Pra
quê? Os amigos quase que em coro advertiram: -"Hôme se ajeite no linguajar
que você tá no céu. Aqui não se fala no coisa ruim".
Dominguinhos deu aquela sua risada macia que lhe é característica. -"Oxe, e é mesmo né? Pois tá combinado."
Dominguinhos deu aquela sua risada macia que lhe é característica. -"Oxe, e é mesmo né? Pois tá combinado."
Com meia hora de forró, Dominguinhos olhava pra um lado e pro outro como que
procurasse alguém que ainda não tinha dado as caras naquela animação. Todos já
sabiam de quem se tratava mas como já estava tudo combinado, faziam de tudo pra
aumentar ainda mais o suspense.
A esta altura, já faziam parte da plateia
em deleite, um milhão de anjos e querubins, Santa Luzia, São Pedro (ainda com
uma cara de sono bem dormido) e São João que não podia faltar depois de tantos
anos vendo o velho sanfoneiro tocar em suas festas.
Até o Todo Poderoso mandou
seu filho na frente pra avisar que esperassem ele chegar pra presenciar o
grande encontro.
Apesar de toda sua onipresença, esse encontro ele fazia
questão de ver com os próprios olhos.
Foi então que, chegando de mansinho por trás, o velho amigo pousa a mão no
ombro do sanfoneiro de Garanhuns, que numa alegria que não se via há anos,
puxava os versos animados de "Olha! Que isso aqui tá muito bom Isso aqui
tá bom demais Olha! Quem tá fora quer entrar Mas quem tá dentro não
sai...
Dominguinhos não precisou nem virar. Reconheceu o amigo pelo cheiro. Aquele
cheiro. Aquele cheiro bom. Aquele cheiro lá das bandas do Exú.
E nesse instante, o céu se alumiou ainda mais e se cumpriu a Prece a Luiz
escrita por Dominguinhos anos atrás e cantada agora entre um longo abraço e
lágrimas de saudade e alegria pelo reencontro.
Prece a Luiz - Por Dominguinhos
Se Deus me desse outra vida
Além dessa que vivo
Iria viver de novo pertinho de seu Luiz
E aprender outra vez, os segredos da sanfona
O canto de amor a terra e esse apego ao chão
Se Deus me desse outra vida
Gastava ela na estrada
Varando noites a fio
Fazendo o povo dançar
Só queria teus abraços pra descansar da sanfona
Depois de nela tocar, o mais bonito baião
Pois Asa Branca, na vida triste do povo
Para o Nordeste alegrar trazendo amor e paixão
Légua tirana deixa distante do povo
Além dessa que vivo
Iria viver de novo pertinho de seu Luiz
E aprender outra vez, os segredos da sanfona
O canto de amor a terra e esse apego ao chão
Se Deus me desse outra vida
Gastava ela na estrada
Varando noites a fio
Fazendo o povo dançar
Só queria teus abraços pra descansar da sanfona
Depois de nela tocar, o mais bonito baião
Pois Asa Branca, na vida triste do povo
Para o Nordeste alegrar trazendo amor e paixão
Légua tirana deixa distante do povo
Seca
martírio e miséria trás alegria ao sertão
Faço uma prece ao Luiz
Peço pra me iluminar
Que eu não esqueça a raiz do rumo do meu cantar
Faço uma prece ao Luiz
Peço pra me iluminar
Que eu não esqueça a raiz do rumo do meu cantar
E as lágrimas que caiam dos olhos de Dominguinhos, do Gonzagão e de todos
aqueles que ali estavam carregaram as nuvens do céu e, depois de tantos dias,
choveu no Sertão do Brasil.
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